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Paulo
Suess Nesta "Assembléia Especial para a América" do Sínodo dos Bispos, realizada em Roma, entre os dias 16 de novembro e 12 de dezembro, está tudo previsto, como num Cursilho de Cristandade. Calendário, temas que podem ser abordados e temas que não podem ser abordados, chaves de leitura do passado histórico do Continente e do futuro do cristianismo, junto com um Vademecum Synodi funcionam como escudos contra uma virtual confusão babilônica e como inibidores de um novo Pentecostes. É sabido que o Vaticano II só conseguiu levar a proposta de João XXIII adiante, porque os padres conciliares não caminharam nos trilhos previamente preparados. Para quem vive num continente do imprevisível e das improvisações, onde os bens básicos de pão, trabalho, saúde e educação dependem mais da graça de Deus do que da previsão dos governantes, o funcionamento total causa, na primeira instância, um alívio. Sim, no Sínodo tudo está bem organizado e, com pouca margem de erro, já se pode até prever o título da Exortação Apostólica Pós-Sinodal de João Paulo II: "Ecclesia in América (ou "Christus in America", como propôs o Vice-Presidente da CAL, Cipriano Calderón Polo) - Sobre a Igreja na América e seu encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a solidariedade". Participam do Sínodo 136 membros eleitos pelas respectivas Conferências Episcopais, dos quais 15 são do Brasil e dos Estados Unidos e 10 do México e de Canadá, respectivamente. Participam mais 68 membros ex officio - entre estes os 27 Cardeais americanos e 24 Superiores dos Dicastérios da Cúria Romana -, 21 membros nomeados pelo Papa, 6 Superiores Gerais (Cisterciense, Capuchinho, Carmelita, Jesuíta, Estigmatino, Salesiano). Ao todo são 231 os membros do Sínodo. Podem freqüentar a Aula Sinodal também os 41 Auditores (entre estes também 10 Irmãs e 7 leigas), 17 Peritos e 5 Delegados Fraternos. Os Auditores e as Auditoras -- entre elas a Irmã brasileira Lúcia Imaculada, N.S.B, do Conselho Internacional de Catequese --, têm principalmente voz nos grupos, mas foram também ouvidos na XVa e na XVIa Congregação Geral, nos dias 26 e 27 de novembro. Os Peritos, entre os quais os dois brasileiros Fernando José Monteiro Guimarães,C.SS.R., e Mário de França Miranda, S.J., devem ajudar o Relator, que é o Cardeal Juan Sandoval Iñiguez, Arcebispo de Guadalajara, e os Secretários Especiais (Francis Eugene George, Arcebispo de Chicago, e Estanislao Esteban Karlic, Arcebispo de Paraná, Argentina) em suas tarefas. Entre os dias 16 de novembro e 12 de dezembro, o Sínodo se reunirá em 26 Congregações Gerais (CG). Em todas essas Assembléias Plenárias o Papa marca fiel presença. Na primeira parte do Sínodo prevalecem as Assembléias Plenárias, onde cada bispo tem oito minutos para dissertar sobre um tema de sua escolha. Na segunda parte do Sínodo prevalece o trabalho em grupos lingüísticos, os Círculos Menores. Dom Demétrio Valentini, de Jales, é o Relator do grupo hispânico-português. Até o dia 10 de dezembro são previstas 14 sessões destes grupos, onde devem ser elaboradas propostas para a votação nas Congregações Gerais. Pronunciamentos e propostas votadas serão sistematizados por um grupo de trabalho pós-sinodal e depois entregues ao Papa para a elaboração de uma Exortação Apostólica Pós-Sinodal. Em sua Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente, de 10 de novembro de 1994, João Paulo II indicou como eixos principais do Sínodo para as Américas a "nova evangelização", a "solidariedade entre as diversas Igrejas Particulares" e a "justiça e as relações econômicas internacionais, tendo em conta a enorme disparidade entre o Norte e o Sul". Nesta vasta temática cabem todas as preocupações do mundo: a família e os leigos, as vocações, os pobres e os povos indígenas, os afro-americanos e os migrantes latino-americanos nos Estados Unidos e em Canadá, a dívida externa e a relação desigual entre Norte e Sul, o neoliberalismo e a solidariedade, a economia selvagem e o racismo, a reforma agrária e o desemprego, a missa dominical e a renovação das paróquias, os sacramentos e a catequese, a santidade, as estruturas de pecado e conversão, os meios de comunicação, o ecumenismo e a ecologia. Numa verdadeira maratona retórica, todos esses temas foram mencionados na aula sinodal. Como a escuta não é o forte de todos os bispos, é compreensível que aquele orador que menos falou, mais aplausos ganhou. Embora a palavra "novo" exerça uma certa magia nos discursos dos padres sinodais -- a nova evangelização como resposta a tudo que é novo no mundo: neoliberalismo, Nova Era, novas religiões e seitas, "nova cultura, nova moral, nova antropologia" (Alfonso López Trujillo) sob suspeita --, pouco se escuta que não já foi dito antes ou depois de Santo Domingo (1992) ou nos documentos de João Paulo II, aliás fartamente citados. Há novos tabus e novas palavras "francas". Da "Teologia de Libertação" ninguém fala na aula sinodal. Dom Celso Queiróz invoca ainda bravamente a "teologia dos ministérios" e a "teologia do laicato" dos tempos da JOC e da JUC. Em contrapartida, os sinodais Obando Bravo e López Trujillo se sentem bem a vontade quando falam da "opção pelos pobres". Para determinados setores da Cúria Romana a "inculturação" se tornou uma reivindicação setorial, basista e indigenista. Esquecidos parecem os brados de Santo Domingo: "A inculturação do Evangelho é um imperativo do seguimento de Jesus e é necessária para restaurar o rosto desfigurado do mundo" (DSD 13). O Card. Jozef Tomko, Prefeito da Congregação pela Evangelização dos Povos, em seu pronunciamento na XIa CG, no dia 24 de novembro, mostra a visão de uma cruzada globalizada da missão, para qual a inculturação parece ser um fator negligenciável. Mas, se é possível encontrar um denominador comum para definir a identidade histórica do continente americano, certamente é seu passado indígena, sua colonização e disparidade social. O alcance semântico da "essencia missionária" da Igreja precisava ser rediscutido. Cada bispo traz um catálogo de desafios conhecidos. As propostas, às vezes, são colocadas sem mediações sócio-históricas, segundo o lema "rezar sempre vale!", ou, quando se trata de questões internas da Igreja, são bem codificadas para não despertar a discordância dos colegas. Também em muitos casos ultrapassa a proposta de soluções a competência dos pastores. O que queria dizer, por exemplo, o Cardeal José Falcão, Arcebispo de Brasília, quando falou na IIa CG (17.11.) da "necessidade de uma corajosa pastoral urbana" e "da revitalização das paróquias, bem como de novas e ousadas estruturas de evangelização", ou quando concluiu "que é preciso passar de um catolicismo pressuposto para um catolicismo proposto; de um catolicismo de defesa para um catolicismo de vanguarda, sal da terra e luz do mundo"? Segundo o bispo de Los Teques, Mário del Valle Moronta Rodríguez, "deve-se promover o protagonismo dos pobres como autores de seu próprio desenvolvimento". Aliás, a palavra "protagonismo" é outra palavra "franca". Há quem pede o protagonismo dos leigos, dos índios, dos afro-americanos, dos jovens. Mas as mudanças estruturais necessárias que poderiam viabilizar o protagonismo do outro e do pobre na sociedade e, sobretudo, na Igreja, poucos ousam explicitar. Um bispo com a coragem própria dos que vivem na selva amazônica, D. Erwin Kräutler, convida seus colegas de revisar "as nossas estruturas eclesiais, liturgias, ritos, teologias, linguagens e ministérios que não são suficientemente dinâmicos e orientados para a missão da Igreja de comunicar o amor do Deus Trinitário e de favorecer a vida e a libertação integral dos povos da Amazônia" (XVI CG - 27.11.). O Sínodo da América é um Sínodo sem Afro-Ameríndia. Um dos poucos bispos nativos, Mons. Toribio Ticona, Prelado de Corocoro, vai mais longe. Propõe que o Sínodo "aprofunde os incipientes esforços de inculturação no meio dos povos indígenas e afro-americanos, inclusive como uma resposta à globalização crescente que ameaça sua identidade sócio-cultural." Pede seus colegas que denunciem com ele "o histórico e atual despojo das terras de seus legítimos donos e a destruição de suas culturas e que assumam a sua recuperação como tarefa de uma pastoral integral" (XVIa CG - 27.11.). Dom Manuel Eguiguren Galarraga, Bispo auxiliar do Beni, invoca o heroísmo e o protagonismo das mulheres latino-americanas e pergunta:"Podemos entrar no século XXI reconciliados com os pecados históricos que se cometeu contra a mulher?" Em conversas reservadas muitos padres sinodais perguntaram: "Onde está o profetismo dos bispos brasileiros?" Em Roma todos sabem quais são os temas que agradam e quais os que desagradam. Não se cutuca a onça, perto de sua toca, com a vara curta. Um certo medo de ser desagradável produz uma obediência antecipada. A tutela interiorizada interpreta discordância como quebra de unidade e paz. Um bispo de um país latino-americano vizinho, falando em off, disse que os colegas lhe pediram para não falar de mártires. O Papa era mais corajoso quando propôs que se deve "atualizar os martirológios para a Igreja universal, prestando grande atenção à santidade de quantos, também no nosso tempo, viveram plenamente na verdade de Cristo" (TMA 37). No dia 28 de novembro, na XVIIIa Congregação Geral, o Card. Juan Sandoval Íñiguez, arcebispo de Guadalajara e Relator Geral do Sínodo, apresentou a Relatio post disceptationem, uma síntese a partir das intervenções nos plenários. Esta Relatio retoma partes essenciais do conteúdo e da estrutura dos Lineamenta, do Instrumentum Laboris e da Relatio ante disceptationem, relação apresentada pelo Relator na I Congregação Geral, no dia 17 de novembro. Os grandes subtemas, a pessoa de Jesus Cristo, a realidade da Igreja e sua missão no mundo e as contribuições nas Congregações Gerais a Relatio articula, semelhante ao Instrumentum Laboris, em cinco capítulos: Encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão (1), caminho de comunhão na Igreja (2), caminho de solidariedade (3); unidade em Cristo vivo e a cooperação entre as Igrejas (4) e unidade em Cristo vivo e esperança (5). No terceiro capítulo, onde a realidade se faz mais presente, trata da Nova Evangelização, dos povos indígenas, das migrações, da corrupção da vida publica, da dívida externa, das seitas. O quarto capítulo se refere às exigências de novas formas de cooperação entre as Igrejas particulares do Continente. Cada raça, língua e cultura colaboram com o Povo de Deus com seus respectivos dons que devem ser respeitados. O pluralismo dos dons serve para construir uma sociedade justa e solidária. Esta síntese deve em seguida orientar o trabalho nos 12 grupos lingüísticos. Estes apresentarão, no dia 2 de dezembro, na IXa e XXa CG seus relatórios. Depois, entre os dias 3 e 5 de dezembro, continua o trabalho nos grupos, onde propostas serão votadas. As propostas dos grupos serão apresentadas e votadas já nas últimas Congregações Gerais e depois entregues a um grupo de trabalho pós-sinodal e ao Papa. O Sínodo se despede de Roma com uma "Mensagem ao Povo de Deus". O gênero literário destas mensagens já permite prever seu conteúdo: Reafirmação da soberania de Jesus Cristo para as Américas, denúncia de desigualdades estruturais entre Norte e Sul, reconsideração da dívida externa pelas nações ricas, nova cooperação entre as Igrejas sob a bandeira de comunhão e solidariedade, uma menção honrosa dos pobres, dos povos indígenas e afro-americanos e da inculturação da Igreja, reafirmação da esperança e invocação de Nossa Senhora. Mais que mensagens bonitas, "a Igreja de América necessita um projeto de evangelização e aplicação do Concílio Vaticano II", disse o Arcebispo de Huancayo, José Paulino Ríos Reynoso(25.11.-XIIIa CG). E acrescenta: "Trata se da evangelização da maioria dos batizados da América que não se sente identificada com esta Igreja visível, porque ela não responde a suas expectativas". Precisamos de uma visão mais ampla do mundo, de uma espiritualidade "do ver, do ser e do agir". O abandono do método "ver-julgar-agir" é a crux deste Sínodo e de muitos documentos eclesiástico que partem do pressuposto que existem verdades que possam ser transmitidas sem mediações sócio-culturais. Um sopro profético intercultural, neste Sínodo, vem, sem muita retórica, dos bispos que vivem próximos dos povos indígenas.Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu, fala da Amazônia perdida para os povos indígenas e a humanidade. "A cada ano que passa, milhares de quilômetros quadrados de selvas milenares são destruídos pelo fogo." Os interesses de latifundiários, madeireiros e garimpeiros, "deixam atrás de si crateras lunares e rios poluídos, além de contagiar, com todo tipo de enfermidades, os índios indefesos", denunciou D. Erwin. Ele propõe, como Mons. Toribio Ticona, "a evangelização inculturada como proximidade solidária no meios dos pobres, dos povos indígenas e afro-americanos" e o acompanhamento dos povos indígenas em suas lutas por terra e identidade cultural (XVIa CG - 27.11.). Mons. Álvaro Leonel Ramazzini Imeri, Bispo de San Marcos, fala com simplicidade dos povos indígenas e de sua "reserva espiritual, baluarte diante de uma sociedade tecnificada, secularizada, individualista e materialista. (...) Os Pastores da Igreja devem ter consciência do direito que os povos indígenas têm de conservar sua própria identidade" e "comprometer-se com uma evangelização inculturada junto às culturas indígenas" (XVIa CG - 27.11.). Dos povos indígenas pode brotar uma nova maneira de ser Igreja, "Igreja local, missionária, inculturada e pascal. (...) Uma pessoa aymara não vive isolada, sem pertencer a uma comunidade", explicou Mons. Toribio Ticona, Prelado de Corocoro. "A comunidade é o centro de proteção da vida individual e social e a festa é a máxima expressão da unidade comunitária na alegria e na partilha." Mons. Toribio, bispo e índio do mundo andino, terminou sua intervenção na sala sinodal com um belo testemunho, que lembra a teologia do mártir Justino (+ 165). Diz o nosso "Justino andino": "A experiência me ensinou que Deus é o catequista do mundo e que chega a todos seus filhos e filhas que criou, aos quais não pode esquecer e ensina seu catecismo, mesmo vivendo numa terra longínqua, onde jamais pisou um missionário. Deus catequiza misteriosamente com o alfabeto das estrelas, a beleza da criação e através dos descobrimentos que a humanidade realiza" (XVIa CG - 27.11.). Mundos diferentes têm mensagens proféticas diferentes. Como destilar a essência profética de um mundo para o outro? Qual é o gesto profético do mundo não-indígena, neste Sínodo, para com os povos indígenas? Qual é a ressonância da mensagem profética e do sofrimento secular do mundo indígena, do mundo afro-americano, do mundo dos pobres no "mundo do Norte" em cada um dos nossos países, nos continentes e sub-continentes? A instituição do Sínodo aponta para um "caminhar junto" entre diferentes Igrejas locais e entre as Igrejas locais e o Papa. O Sínodo Episcopal pode ser um lugar privilegiado para o exercício da colegialidade fraterna e responsabilidade universal dos bispos. Ao concretizar o Sínodo Episcopal como uma instituição permanente, Paulo VI apontou, através do Motu Próprio "Apostolica sollicitudo", de 15 de setembro de 1965, para o caráter informativo e consultivo do Sínodo. Mas, segundo o Motu Próprio, o Sínodo poderá também ter caráter deliberativo, desde o respectivo papa lhe conceda este poder. Em uma entrevista a "Família Cristã" (n. 42/1990, p. 50), Dom Aloisio Lorscheider dizia: "Escrevi aos episcopados de Canadá, Estados Unidos, América Central e de toda América Latina. A maioria quer um Sínodo deliberativo". Vale lembrar que as Conferências do Episcopado Latino-Americano de Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) tiveram caráter deliberativo. Desde o Sínodo para a América -- o primeiro desta natureza -- e no meio de seus desafios específicos emerge a questão mais profunda da partilha do "múnus pastoral" com o Supremo Pastor da Igreja. Colegialidade adulta e responsabilidade universal poderiam ser gestos proféticos do Sínodo que apontam -- frente ao mundo e a novos autoritarismos e centralismos emergentes que ameaçam o século XXI -- para o protagonismo dos pobres, para a partilha do poder administrativo e a solidariedade no uso dos bens deste planeta. Notes
B.
Quo Vadis Igreja nas Américas? A Assembléia especial para a América do Sínodo dos Bispos se despediu de Roma com uma mensagem de unanimidade. Segundo o regulamento do Sínodo, Vademecum Synodi Art. 68, a Mensagem deve ter um estilo exortativo com a finalidade de estimular o Povo de Deus na fidelidade da própria vocação, "louvando-o, além disso, pelo esforço que realiza". Os redatores -- presidente e dois vice-presidentes, nomeados antes do início do Sínodo pelo Papa (VS Art. 31b), mais cinco membros, um perito e três assistentes, posteriormente indicados -- devem apresentar um "primeiro projeto" no decorrer da terceira semana de trabalho sinodal.1 Sobre este "projeto" a Assembléia pode fazer observações a serem acolhidas ou não na mensagem definitiva, votada genericamente no final do Sínodo. Depois de quatro semanas cansativas, os padres sinodais não têm mais fôlego para "brigar" por uma ou outra palavra no texto da Mensagem. Seus pensamentos já estão nas suas dioceses. Vale a unanimidade genérica do texto, a amizade com o vizinho na aula sinodal e o encontro com o Papa. O Sínodo, certamente, é mais complexo que a Mensagem, mas a Mensagem é uma expressão climática do setor hegemônico, não necessariamente majoritário, do Sínodo. A unanimidade da Mensagem de uma Igreja universal tem seu preço. Nem as pequenas comunidades cristãs dos primórdios do cristianismo conseguiram essa unanimidade. Sabemos das divergências entre Pedro e Paulo, entre Paulo e Barnabé, entre Estêvão e a comunidade de Jerusalém, entre os judeu-cristãos e os cristãos provenientes do mundo pagão da diáspora. Hoje, na crescente complexidade do mundo, são as culturas e as classes sociais, as diferentes articulações entre as prioridades religiosas e políticas que geram um certo pluralismo no interior da Igreja. A Igreja Católica é composta por setores que unem o Credo e a fé em Jesus Cristo, mas que divergem no que se refere às mediações históricas desta fé. Neste contexto, unanimidade pode ser o resultado de um consenso em torno de denominadores comuns, abstratos e, sobretudo, dirigidos para fora da Igreja. As cobranças sociais ad extra nos unem, custam pouco e garantem um "clima profético" de denúncia. Neste caso, as mudanças internas da própria Igreja não são postas na mesa de negociação. Unanimidade eclesial, porém, pode ser também o resultado da atuação hegemônica de um dos setores que consegue impor seu ponto de vista como o ponto de vista da Igreja. A primeira hipótese -- o denominador comum e abstrato -- afasta o olhar da realidade, a segunda -- a hegemonia de um dos setores -- da verdade que liberta. Da complexidade do mundo, das divisões sociais e da diversidade das nossas culturas que repercutem nas práticas, espiritualidades, teologias e liturgias, emerge a tarefa do permanente aprendizado de conviver e "caminhar juntos" (syn-odos) na divergência em caridade, ou, com a Gaudium et spes propôs: "Nas coisas necessárias reine a unidade, nas duvidosas a liberdade, em tudo a caridade" (GS 92; cf. UR 4 e LG 36). O aprendizado de um Sínodo, portanto, pode ser, primeiro, a partir de realidades diferentes, a convivência com experiências de fé bem diferentes, e, segundo, a partir das mesmas realidades, a expressão de diferentes pontos de vista. Um olhar sobre o conteúdo da Mensagem Sinodal (MS) nos mostra que estamos ainda no começo deste caminhar juntos que assume a realidade na diversidade. 1. Conteúdo A Mensagem do Sínodo tem uma estrutura singela em torno de quatro eixos: profissão de fé (Introdução), alegrias, preocupações, esperança. A Mensagem Sinodal, sem destinatário específico, é irênica em seu conteúdo e polida e apelativa em seu estilo, refletindo uma Igreja otimista, solícita em sua fé e inabalável em sua esperança. Os problemas detectados na Mensagem Sinodal não são propriamente da Igreja. São de um mundo sem Jesus Cristo. Contra os vírus deste mundo, a Nova Evangelização é a vacina capaz de produzir os anticorpos necessários. Através da Nova Evangelização, os problemas do mundo se tornam solúveis. Na Introdução (MS 1-5), os padres sinodais professam sua fé em Jesus Cristo, Senhor e Redentor de toda a humanidade. O encontro com ELE -- de maneira incomparável na Eucaristia -- leva à conversão, comunhão e solidariedade. Como a Introdução ao Instrumentum Laboris (IL 4), também a Mensagem do Sínodo (MS 4) afirma a unidade das Américas nas "riquezas comuns", "apesar" de ser "composta de muitas nações, culturas e línguas". Na parte seguinte, o Sínodo (MS 6-15) invoca as razões de sua alegria: os irmãos e as irmãs na fé, as famílias, os leigos e leigas, as mulheres, as crianças, os jovens, os bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e as religiosas, os seminaristas, as paróquias e os mártires. O terceiro eixo da Mensagem (MS 16-29) gira em torno de preocupações. Concretamente, os padres sinodais se dizem preocupados -- e aqui muitas "alegrias" anteriormente elencadas se transformam em preocupações -- com as famílias, os jovens, os menores, os imigrantes, as minorias, os povos indígenas, os descendentes de africanos, com os solitários, os idosos, os doentes e os pobres. São mencionadas preocupações específicas do Norte e do Sul e o peso da dívida externa (cf. TMA 51). Os líderes de governo, de indústrias e de finanças, ricos, economistas assistentes sociais e teólogos são convidados para que "caminhem conosco e com os pobres, buscando, juntamente com eles, soluções que respeitem sua dignidade humana" (MS 29). Em sua quarta parte (MS 30-34), a Mensagem Sinodal enlenca cinco desafios que representam, de uma certa maneira, a condensação de cinco prioridades do Sínodo: santidade, vocações sacerdotais, esforços missionários e meios de comunicação social. A Nova Evangelização deveria encaminhar estes desafios a contento, sobretudo num continente onde "gozamos de uma benfazeja liberdade religiosa" para "exigir justiça para os pobres" (MS 34). A última parte da Mensagem retoma o tópico da Introdução: "Jesus Cristo é Senhor". Ele caminha conosco e nos dá coragem. Encontramos Jesus no próximo, especialmente no pobre, no faminto e nos necessitados. Ele está onde dois o três estiverem reunidos, está no milagre da criação, no sacramento da Reconciliação e na Eucaristia (MS 36). Reconheçam-se neste parágrafo alusões implícitas à Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC 7) e ao Documento de Puebla (DP 31-39). O encontro com Jesus produz, segundo a Mensagem Sinodal, aquela conversão que transforma a vida dos ricos e dos pobres, dos poderosos e dos fracos, as atitudes dos políticos e o pensamento dos economistas. O encontro com Jesus Cristo nos chama à comunhão e à solidariedade. A Mensagem termina com uma saudação a Nossa Senhora de Guadalupe, invocada como guia ao encontro de Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, que nos conduz com amor e com a força de sua graça ao terceiro milênio de sua vinda e à vida eterna. 2. Ausências A Mensagem final do Sínodo é atravessada por uma certa indefinição entre uma perspectiva pastoral e doutrinal. O Vaticano II fez bem em definir-se como um concílio pastoral e de não misturar a Gaudium et spes com a Lumen gentium. Além disso vale a observação que uma cristologia e uma pastoral sem dimensão pneumatológica e trinitária, estão em perigo de afogar-se na praia do fundamentalismo. Apesar de a Mensagem Sinodal elencar um catálogo de temas e destinatários que vai desde a terceira idade até o terceiro milênio, constatam-se ausências significativas. A ausência do magistério latino-americano de Medellín, Puebla e Santo Domingo poder-se ia justificar a partir de uma assembléia pan-americana, onde não se deve privilegiar os consensos pastorais e as conquistas espirituais de uma das partes. Por outro lado, num Sínodo ninguém precisa esconder nada, já que o Espírito fala a cada um segundo a sua própria língua (cf. At 2,8). Assim tampouco houve um intercâmbio com o magistério do Norte (USA e Canadá). Um ou outro jantar interamericano informal, que aconteceu durante o Sínodo, não cobriu esta lacuna. Também o Vaticano II, magistério comum da Igreja universal, está praticamente ausente. A Mensagem final do Sínodo invoca "alegrias" e "esperanças", uma alusão formal à Constituição Pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo de hoje (1965), fica-nos, porém, devendo as grandes perspectivas históricas de orientação "no limiar do terceiro milênio do Cristianismo". A Mensagem do Sínodo desconhece as palavras "libertação", "inculturação", "protagonismo", "autodeterminação", "autonomia", "democracia", "participação", "operários", "neoliberlismo" e "exclusão". Será que a Nova Evangelização não se submete à árdua tarefa da inculturação e que ela previa e prepotentemente "requer culturas que estejam abertas à fé em Deus" (MS 34)? É difícil dirigir uma Mensagem de esperança aos povos das Américas, sem contextualidade histórica, sem articulação entre encarnação e solidariedade contemporânea (cf. GS 32) e sem análise sócio-analítica da realidade, portanto, sem compreensão profunda dos sinais de Deus no tempo. De fato, se tiramos da Mensagem alguns itens datados, a maior parte do seu conteúdo poderia ser lido na virada do século 19 para o século 20. É provavelmente isso que explica o pouco interesse que o Sínodo despertou nos meios de comunicação e no povo de Deus. No chão das Américas era difícil sentir que em Roma se tratava de "coisa nossa". Mas, este "sentimentos" e a própria Mensagem fazem injustiça a pronunciamentos, articulações e preocupações de muitos bispos. Não faltaram porta-vozes dos pobres e dos jovens, dos afro-americanos e dos povos indígenas. Faltaram, talvez, autocrítica com nosso próprio agir e realismo na abordagem do presente e do futuro. 3. Perspectivas A Mensagem Sinodal é um texto conjuntural, que reflete o pensamento do setor hegemônico do Sínodo. Sua análise e suas críticas podem servir ao Conselho Pós-Sinodal2 para a preparação da "Exortação Apostólica" que se investirá da autoridade do Papa. Ela vai considerar, segundo o discurso conclusivo de João Paulo II, no dia 11 de dezembro, "as Proposições aprovadas pela Assembléia e toda a riqueza das intervenções e das diversas relações, com o objetivo de tornar eficazes as sugestões pastorais surgidas no decorrer dos trabalhos sinodais". As 76 proposições do Sínodo foram redigidas sob a responsabilidade do Relator Geral (Sandoval Iñiguez, Guadalajara) por seus Secretários Especiais (Francis Eugene George, Chicago, e Estanislao Esteban Karlic, Paraná, Argentina), antes do Sínodo nomeados pelo Papa. As Proposições, que na aula sinodal foram apresentadas em latim, não podem ser publicadas e servem ao "Sumo Pontífice" como "sugestões para o bem da Igreja" (VS Art. 9). Os redatores, certamente, procuraram na dupla lealdade frente ao Instrumentum Laboris e às propostas dos padres sinodais encontrar um meio caminho. A pedido da Assembléia Sinodal, o Papa se propõe a entregar a "Exortação Apostólica" aos povos das Amérias na festa de Nossa Senhora de Guadalupe, em 12 de dezembro de 1998, no México. O que podemos esperar da "Exortação"? Espera-se uma "exortação pastoral", não dogmática ou cristológica. A cristologia da "Exortação" deve ser exposta no interior de uma teologia trinitária e pneumatológica, a partir do Jesus histórico, pobre missionário de Deus paimãe. Precisamos de novo estudar o que o Vaticano II nos ensinou sobre a "autonomia das realidades terrestres" (GS 36). A fé inspira nossa ética e nossas atitudes frente aos problemas encontrados, não as soluções técnicas destes problemas. Não vamos confundir os diferentes níveis da realidade. A "Exortação" não deve analisar os problemas candentes da humanidade a partir de uma declaração da onipotência divina, presente em Jesus Cristo. Não disputamos o "Jesus salva" num mercado fundamentalista com grupos "crentes". Muitas afirmações autosugestivas pertencem mais ao departamento da sociolingüística do que ao da teologia mística. Desde Melchior Cano, padre conciliar de Trento, a realidade e a história são consideradas lugares teológicos, lugares a partir dos quais Deus fala à humanidade. Recuperar a análise sócio-analítica desta realidade é pressuposto para a acolhida correta do terceiro milênio das mãos de Deus e das mãos dos pobres. A opção evangélica pelos pobres há de ser reafirmada por todo o continente. Estamos em diálogo com a realidade terrestre num mutirão com todos que une a fé em Deus criador. Desde o Vaticano II, a dimensão macro-ecumênica não é uma linha estratégica, mas um lugar teológico da revelação de Deus. América é um lugar multicultural e plurireligioso. A condição da paz nas Américas é a assunção de sua diversidade cultural e religiosa e a superação de sua disparidade social. Uma "Exortação" desde e para as Américas deve levar em conta as conquistas e as ambivalências da modernidade. O próprio Papa, certamente, vai cuidar que palavras-chaves de seu magistério e da nossa realidade como "protagonismo", "libertação" e "inculturação" e "participação" se tornem explicadores de nossa esperança. Saberemos dar a água aos que têm sede de Deus? A mística do povo de Deus não consolidamos em enclaves espirituais, dentro ou fora do mundo, nem através de cruzadas missionárias. Como na parábola do Jovem Rico e do Bom Samaritano, a felicidade espiritual do cristão está vinculada à partilha dos bens e a prática da solidariedade. A Igreja das Américas precisa se perguntar, se a sua mística e as suas estruturas correspondem às necessidade pastorais do povo de Deus. A carência eucarística em muitas partes deste Continente, não corresponde à vontade de Deus. Tentativas de terceirizar as causas do mal para o demônio, o mundo secularizado ou a agressividade de "seitas" fundamentalistas, para livrar-nos da nossa responsabilidade pelo vácuo institucional, não contribuem para uma fé adulta. Como pensar a Igreja nas Américas para o século 21? Grandes contingentes do povo de Deus se tornam cada vez mais pobres. Isso indica que também a Igreja do século 21 vai ser uma Igreja mais pobre que a Igreja da segunda metade do século 20. Esta perspectiva exige um new deal, uma nova partilha dos bens, e o reconhecimento das riquezas de nossa diversidade. A "nova partilha" aponta também para uma redistribuição das responsabilidades entre leigos e clero e entre homens e mulheres na Igreja. Essa perspectiva não nos espanta, desde que pensemos a Igreja do século 21 a serviço das comunidades dos pobres e dos outros (CEBs), em nossas doutrinas e teologias, em nossas liturgias e ministérios. A proximidade dos pobres e dos outros nos ensinará a pensar grande e com realismo; distinguir melhor entre uma leitura fundamentalista do Evangelho e uma leitura que toma o Evangelho ao pé da letra; distinguir entre uma leitura populista da Palavra de Deus e uma leitura popular. O Reino de Deus não é uma reserva ecológica; a árvore da VIDA não é um bonzai. Virão lutas duras pelo pão de todas as bocas e a paz em todos os lares. A vigilância evangélica exige nossa presença no mundo. Que as chagas de Jesus, crucificado nos pobres e nos outros das Américas, iluminem nosso amor à Igreja, nossa visão da realidade e nossa ação no mundo! Notes
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